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20 de agosto de 2012

Enredo da Jucutuquara - Carnaval 2013

A Centenária Noite do Sabiá da Crônica: ente Pássaros, Palavras, Chiquitas e Baianas.

 Lá vem o samba. Em todo o canto da cidade já se ouve um ronco de cuíca, um surdo, uma voz cantando. São “os exércitos do samba fazendo os primeiros exercícios antes de marchar sobre a cidade”.

Um exército em verde, vermelho e branco: é Jucutuquara que vem lá! Sua sábia coruja vai
homenagear um sabiá, um mestre em retratar através das palavras as coisas simples do cotidiano. Um capixaba de Cachoeiro (com orgulho e devoção) que vai desfilar sua obra pela avenida comemorando sua centenária noite.
Nesta noite de festa estarão lá suas maiores paixões e companhias inseparáveis, como sua frenética máquina de escrever, responsável por nos brindar com tantos belos textos ao longo de sua brilhante passagem entre nós. Rubem Braga, menino do interior, criado entre peladas e pescarias, entre árvores e o imponente Rio Itapemirim, fez de suas lembranças uma fonte inesgotável para a criação de suas deliciosas crônicas.
Para saudar figura tão importante basta trazer ouvido e coração, para ouvir e para sentir. Não é preciso traje de gala, não é preciso ser conde. É preciso somente ter alma de passarinho, pois o homenageado era loucamente apaixonado pelos pássaros, todos eles, fossem um tuim ou um sabiá. A natureza o encantava: plantas e animais. Seu cachorro, Zig, era tão conhecido na cidade que recebeu até o sobrenome da família e, contrariando as regras do mundo animal, tinha grande amizade com uma gata, com a qual dormia. Histórias da infância de todos nós que o “Sabiá da Crônica” contou de forma única. Costumava dizer que se uma criança fosse mapear uma cidade, faria a partir de suas árvores. Por isso, tratava o pé de fruta-pão e o cajueiro de sua casa em Cachoeiro como membros da família e fazia questão de apresentá-los aos amigos. Por esse pioneirismo ambientalista virou nome de orquídea, um presente do amigo Augusto Ruschi.
O "Velho Braga” foi acima de tudo um espião da vida. Um observador atento que escreveu um pouco de tudo: infância, mar, mulheres, amigos, saudade, esperança, solidão, morte. Foi um verdadeiro cigano. Morou em diversas cidades brasileiras, fez reportagens para jornais e revistas em diversos locais do mundo. Esteve com a FEB na Itália, cobrindo a atuação de nossos pracinhas na Segunda Guerra Mundial. Foi representante do Brasil no Marrocos e no Chile. E tinha uma paixão especial por Paris, a capital da França, tema de inúmeras crônicas do mestre.
Mas esse cigano, aventureiro das palavras, adotou a cidade maravilhosa como sua casa. Foi lá que se encantou com a borboleta amarela que lhe seguiu pelas ruas do Centro; foi lá que após a vitória da Mangueira com o enredo sobre seu amigo Drummond visitou o morro e escreveu um lindo texto sobre o samba; foi lá que previu a decadência da princesinha do mar na crônica “Ai de ti, Copacabana”. Foi lá que viu a rotina de marinheiros e das garotas de Ipanema, o bairro que escolheu para ser sua morada definitiva no Rio de Janeiro. Sua cobertura na Rua Barão da Torre transformou-se numa espécie de santuário que receberia os muitos amigos do escritor, entre eles, Vinícius de Moraes, irmão de copo, de papo e que conjugava com ele uma paixão comum: as mulheres.
Na cobertura de Ipanema, Rubem Braga procurou recriar a atmosfera interiorana que nunca o abandonou. Um local habilmente projetado por ele, uma projeção de sua infância em Cachoeiro de Itapemirim no meio dos prédios de Ipanema. Em seu Jardim Suspenso plantou árvores, como um cajueiro que trazia dia a dia as lembranças da casa da família na Capital Secreta (como Vinícius apelidou a cidade natal do amigo), e recebia visitas diárias de sua intensa paixão: os passáros. Era uma espécie de celebração quase litúrgica das graças e mistérios do dom de sentir, valorizar e distribuir a natureza como um bem do que andamos, todos, cada vez mais precisados.
O Sabiá da Crônica era assim, um homem de cara fechada e com uma veia de extraordinário humor. Ao mesmo tempo, poeta e poético. Era preciso ser muito seu amigo para que ele entreabrisse a porta de sua alma. Ele só era menos contido no amor pelas mulheres. Quando não estava apaixonado por uma em particular, estava apaixonado por todas.
Hoje é o samba quem presta sua homenagem a esse capixaba apaixonado pelas coisas simples da sua terra. Um capixaba que nunca esqueceu sua infância de menino do interior, a ponto de “planejar” sua morte e pedir que suas cinzas fossem espalhadas nas curvas do Rio Itapemirim, no seu pequeno Cachoeiro, para que, assim, pudesse seguir até o mar e dizer: “Eis aqui o teu filho”. Rio abaixo, nas águas de sua infância, ele retornou ao mar, onde, com certeza, deve estar, alegremente, brincando com as sereias.
Então, que cuícas, surdos e tamborins executem a sinfonia da centenária noite. O Sabiá, lá do céu sim, ele conseguiu convencer São Pedro a deixá-lo a entrar) estará achando tudo isso um exagero, mas, com certeza, ficará muito feliz ao ver tantas chiquitas com seus corpos esculturais sambando em sua homenagem. E em retribuição ele repetirá: “bem-aventurados os que fazem o carnaval, os que não fogem nem se recolhem, mas enfrentam as noites bárbaras e acesas, bem-aventurados os gladiadores e Césares e chiquitas e baianas, e que a vida depois lhes seja leve na volta do sonho em que se esbaldam!”

Autor do Enredo:
Anclebio Júnior - anclebiojr@gmail.com

Confira o samba vencedor do concurso de 2013.

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